Templos de concreto para culturas de barro

A falta de compreensão sobre o Evangelho e sua relação com a cultura humana têm promovido posições extremadas e algumas heresias.

Aqueles que advogam que o Evangelho existe desconectado da cultura humana o apresentam sem qualquer atenção à contextualização. O resultado é uma mensagem com conteúdo bíblico e fiel, mas transmissão incompreensível. Heresias não nascem apenas da pregação de mensagens que não sejam bíblicas – nascem também quando mensagens bíblicas não são bem compreendidas.

Tenho observado em diversos países que o sincretismo e o nominalismo são, frequentemente, frutos da ausência de uma mensagem que seja ao mesmo tempo bíblica e compreensível, fiel na doutrina e na sua comunicação. Não observar o contexto leva-nos a propor templos de concreto para culturas de barro, músicas de piano para povos de tambores, sapatos engraxados para gente descalça.

No Norte de Moçambique encontrei-me com um crente africano que participou de uma preciosa conferência de exposição bíblica. Ao partilhar o que havia aprendido, tornava-se clara a sua falta de real compreensão da mensagem. Quem havia apresentado a mensagem tinha inquestionável conhecimento teológico e fidelidade às Escrituras. O equívoco estava, portanto, no abismo que pode separar o que se fala daquilo que se compreende, especialmente lidando com língua e cultura diferentes. A ausência de conhecimento do contexto prejudica tanto a mensagem bíblica quanto a ausência de conhecimento da própria mensagem.

Por outro lado, aqueles que veem o Evangelho meramente como uma expressão ou um produto da cultura humana, tendem a enfatizar mais o seu efeito social do que sua transformação espiritual. Eles proclamam uma mensagem meramente sociológica, que não confronta, não desafia nem transforma.


Em dias de crescente pluralismo e profundo relativismo, a tentação é proclamar um Evangelho humanista de simples conforto para os aflitos em vez do Evangelho de Deus, que acusa o pecado, busca o perdido e o transforma pelo sangue do Cordeiro Jesus.


Nossos cânticos litúrgicos, as pregações e os livros parecem se dedicar cada vez mais a fazer o homem sentir-se bem consigo. Fala-se sobre esperança e fé, graça e perdão, alegria e paz. Esses são, certamente, valores do Evangelho. Mas não podemos nos esquecer que a mensagem de Deus também acusa o pecado, apresenta o juízo e condena o pecador que não se arrepende. O Evangelho que não confronta, desafia nem transforma não é Evangelho.

Creio que possamos compreender o Evangelho como supracultural, pois explica o homem, sua identidade e o propósito (2 Tm 3:16-17); multicultural, atrai ao redor de Jesus Cristo pessoas de todos os povos, línguas, tribos e nações (Ap 5:9); transcultural, deve ser enviado de uma cultura a outra, até que todos o ouçam (At 1:8); cultural, tendo sido revelado à humanidade em sua história, Jesus encarnado em nosso tempo e espaço (Jo 1:14); intercultural, à medida que promove comunicação, entendimento e comunhão entre pessoas de diferentes culturas(Cl 3:11); contracultural, pois confronta o homem em sua própria vida e cultura, produzindo real, pessoal e eterna transformação (At 26:18).

O Evangelho nos convida a sermos humildes, mas valentes; simpáticos, mas intrépidos; fiéis no conteúdo, mas também na comunicação; apresentando a Graça e também a justiça de Deus em Cristo Jesus.

 

Ronaldo Lidório
Missionário e antropólogo vinculado à APMT/WEC
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